segunda-feira, 21 de setembro de 2009

J-POP: O PODER DO POP-ROCK NIPÔNICO

Em 2008, em meio às comemorações e homenagens ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, até o São Paulo Fashion Week, badalado evento de moda, deu sua contribuição. Sua revista oficial, a ffw Mag! (Lumi 05), dedicou uma edição inteira ao Japão, com abordagens históricas, sociais, culturais das mais variadas com uma grande variedade de autores.

A mim, coube um texto sobre música jovem. Música é um assunto que me interessa tanto quanto HQ e foi bem divertido produzir o texto. Foi também muito gratificante participar da publicação, que coloca seu nome na capa, inclui biografia e foto no interior e - principalmente - remunera justamente seus colaboradores. Respeito artístico e profissional à toda prova.

O que segue abaixo é uma revisão do texto original, sendo que o que foi mostrado na revista passou por edição, ficando menor para se adequar tanto ao espaço disponível quanto às normas e padrões editoriais. Espero que goste.

J-Pop!

Música japonesa para o ocidente ouvir

O J-pop é o equivalente japonês da música pop internacional, mas o idioma é apenas uma das características que o distingue de outros segmentos da música. Do rock mais grandioso às baladinhas açucaradas, o J-pop movimenta uma indústria milionária e diversificada, que aos poucos vai se mostrando para o mundo. Mas muito antes do movimento atual, uma música japonesa fez o mundo todo assobiar.

IDENTIDADE PRÓPRIA X ARMAÇÕES DA MÍDIA

Na década de 1960, antes de definições e rótulos, a música "Ue wo muite arukou" (ou “Caminhando e olhando para cima”), deliciosa pérola pop do cantor Kyu Sakamoto, ganhou o mundo sob o título "Sukiyaki". O nome foi sugerido pelos executivos da gravadora que lançou a música no ocidente. Mesmo sem que a música em questão tivesse algo a ver com o prato, o
título foi escolhido por sua sonoridade oriental. O pop da época é chamado de "kayokyoku", um rótulo em geral associado às canções populares feitas até 1989, quando terminou a era "showa" e começou a era "heisei",  seguindo uma definição tradicional baseada no imperador que está no trono.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DESENHANDO PROFISSIONALMENTE

É impossível falar do meu trabalho com HQ sem mencionar o  quadrinhista Arthur Garcia, autor de uma grande variedade de cursos de desenho publicados pela Editora Escala e premiado em 1990 com o Troféu O Mosquito (Festival de Amadora, Portugal) e duas vezes com o Troféu Angelo Agostini, sendo em 1994 como roteirista e em 95 como desenhista.

Trabalhamos juntos no começo dos anos 90, com ele desenhando roteiros meus para Maskman e Changeman, da Ed. Abril. Em 1993, começamos uma parceria com Street Fighter, para a Ed. Escala, que se tornou nosso trabalho mais popular. Em 1995, quando editei a revista Master Comics (Ed. Escala), convidei ele para produzir sua série Pulsar, da qual eu era grande admirador. Em 1997, ele desenhou a minisserie de meu personagem Blue Fighter, para a Trama Editorial. Em 2003, foi um dos primeiros nomes que chamei para o álbum Mangá Tropical (Via Lettera).

E até hoje sempre nos falamos, compartilhando nossas percepções sobre o mercado. Durante um de nossos papos, ele comentou que já pensou em montar um blog, mas que não teria tempo e paciência para atualizações regulares, mas que tinha alguns textos antigos e já utilizados que gostaria de compartilhar com uma nova geração de leitores. Então, atendendo a meu convite, ele enviou alguns textos e selecionei um para entrar aqui no Sushi POP, que tem um espaço para eventuais autores convidados. É um texto que eu gosto muito e fala sobre o maior desafio em ser um desenhista profissional. Para ler e refletir:


VOCÊ CONSEGUE DESENHAR ISTO?

Se eu tivesse ganhado mil reais por cada vez que ouvi esta pergunta nos últimos vinte e tantos anos, provavelmente já estaria rico e aposentado. Este, como vocês bem podem imaginar, não é o caso.

Toda vez que sou convidado a dar uma palestra em uma escola de desenho, a minha mente invariavelmente inicia uma viagem no tempo que me leva de volta a dois momentos distintos do passado. 

Em um deles, estou em 1989, na cidade de Angoulème, na França (onde anualmente se realiza uma das principais convenções de quadrinhos da Europa), mostrando o meu portfólio a dois artistas franco-canadenses que se espantavam com a diversidade de estilos nele contida. No outro, eu tenho dezesseis anos e, sendo um fã incondicional de John Byrne e quadrinhos de super-heróis, tento aprender a mecânica do desenho de Mônica e Cebolinha para produzir algumas amostras que possam ser apreciadas por um profissional do estúdio de Maurício de Sousa que eu acabara de conhecer. 

O motivo destas duas lembranças virem à minha mente, de algum modo interligadas, quando sou convidado a falar para aspirantes à profissão de quadrinhista, se explica pelo fato de que pela primeira vez, naquele ano de 1989 na França, me dei conta de ser um artista versátil. E que, mais do que uma escolha pessoal, isto se deu por uma imposição do mercado já na minha primeira exposição a ele. Como já disse anteriormente, desde a mais tenra idade sempre fui um fã dos quadrinhos de super-heróis, mas quando tentei adentrar ao mercado de trabalho como artista, descobri que ele era praticamente dominado pelo estilo infantil (ou “bonequinhos”, como muitos de nós o chamamos). Assim, sem ter muita escolha, fui a campo e aprendi a lidar com este tipo de desenho e, sem que me desse conta, me tornei um proletário das artes. 

No entanto, maravilhosa como possa parecer a idéia de se tornar um profissional do lápis e do pincel, esta traz embutida uma responsabilidade que muitos jovens artistas parecem não perceber: você vive do que produz; ou seja, se não tiver trabalho, não terá comida na mesa.
Esta idéia pode parecer aterradora num primeiro momento, mas é por isso mesmo, que toda vez que dou uma palestra em uma escola, sugiro aos jovens aspirantes que gastem um tempo ponderando a respeito da mesma. Isto evitará muitas desilusões. 

Foi por reconhecer o caráter comercial da nossa profissão que sempre estive pronto a travar conhecimento com novos editores, produtores e agentes, os quais, após uma consulta ao meu portfólio, invariavelmente me mostravam o tipo de trabalho que desejavam e sacavam contra mim a já referida pergunta: “Você consegue desenhar isto?” 

Como conseqüência, desenvolvi trabalhos para uma infinidade de meios: quadrinhos, publicidade, licenciamento, cartum, animação e ilustração, para o Brasil e o exterior, sempre alargando as fronteiras de estilos que pudessem ser de mim exigidos, nos prazos desejados e na qualidade requerida. 

Daí o meu conselho a todos os aspirantes a artista que encontro: tentem ser ecléticos. Independente de seus gostos pessoais (e eu não estou a pedir que os abandonem), tenham certeza que saberão desenhar tanto um pato de verdade quanto um Pato Donald. Num mercado instável como o nosso, quanto maior for a sua habilidade artística, menor será a chance de você ficar sem trabalho e ouvir uma outra pergunta muito desagradável sendo endereçada a você: “Quando vai pagar o que me deve?" 

P.S. : Anos atrás, durante minha estada em Portugal, descobri que Derib, um famoso desenhista suíço que realizou um ótimo faroeste realista (Buddy Longway), começou a sua carreira como desenhista no estúdio de Peyo, o criador dos Smurfs, o que lhe fez desenvolver uma versatilidade invejável.

P.S. 2: Vocês sabiam que um dos primeiros trabalhos de John Byrne foi a quadrinização da série “Carangos e Motocas” (Wheelie and the Chopper Bunch) da Hanna-Barbera, para a Charlton Comics?


- Arthur Garcia   

terça-feira, 8 de setembro de 2009

DIVULGAÇÃO X TRABALHO

Trabalhar por divulgação é uma das maiores roubadas e são pouquíssimos casos em que essa relação se revelou vantajosa. Em geral, a vantagem é sempre para quem vem fazer a proposta.

Quando alguém age empresarialmente e monta uma empreitada, seja uma confecção, editora, uma fábrica ou até um evento, faz uma planilha de custos. Vai pagar instalações, mão-de-obra, segurança, materiais, infra-estrutura, uniformes, sei lá. Vai cotar preços e fechar acordos e parcerias comerciais. E na hora de ver o ilustrador, designer ou desenhista, vai oferecer divulgação para ter o trabalho. Por quê não tem coragem de perguntar à empresa de segurança se pode mandar pessoas capacitadas em troca de poderem distribuir cartões da empresa? Ou por quê não pergunta aos faxineiros se podem limpar de graça pra ver se conseguem alguma casa pra fazer faxina entre os clientes?

O pensamento que vem é mais ou menos este: "Ah, mas artista não deve se preocupar com dinheiro, essas coisas. Pra esses basta divulgar muito e rezar para que o próximo cliente pague bem, porque eu não vou gastar e ainda vou ajudar esse coitado a ter seu nome conhecido por mais pessoas. Ele tem é que me agradecer."

Sempre lembro de um espertinho assessor de um político ambicioso que queria me convencer a ilustrar de graça para o cara. Primeiro, porque "seria um desafio pra mim" (isso é papo motivacional bem rasteiro...) e depois porque "seria fantástico saber que o desenho estaria circulando pela cidade em camisetas e adesivos de carro". Grande m*****. Alguém vê o desenho e pensa: "Oh, que desenho legal, vou perguntar quem fez e pedir pra fazer um pra minha camiseta. Se for por 10 reais, melhor ainda." Até parece...

Quem contrata serviços podendo pagar preços de mercado tem rede de contatos profissionais e não sai anotando nome de desenhista porque viu um desenho num folheto. Vai se informar e ver se é profissional ou "quebra-galhos", um pára-quedista sem grandes comprometimentos com o ofício. 


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SÓ POR DINHEIRO? TAMBÉM NÃO...


Não pense que eu chego ao extremo de dizer que não faço nada se não for pra receber. Há casos e casos.
Já colaborei com ONGs e já forneci desenhos para entidades filantrópicas sérias, igrejas e até um templo budista.

Uma entidade assistencial até perguntou humildemente quanto eu cobraria pra desenhar para uma camiseta deles. Preferi fazer o trabalho como doação mesmo, após tomar conhecimento das condições em que trabalhavam. E entrei na empreitada do álbum Mangá Tropical mesmo sabendo que ia render pouca grana e dar muita dor de cabeça movido por amor à arte. E apesar de ultimamente só ter aceito convites para palestras em troca de cachê, já falei muito pra ajudar eventos de conhecidos ou para promover algum trabalho que estava lançando.

Afinal, foi por gostar de desenhar e escrever que entrei nessa área. E fiz muito laboratório de palestras em eventos mais descomprometidos até ter segurança para cobrar pelo que eu digo e da forma como apresento.

Já fiz e faço coisas motivado por inspiração artística e por amizade, o que é bem diferente de atender a uma solicitação profissional de graça. Se o próprio artista não se valorizar enquanto profissional, não deve esperar que os outros façam isso por ele.

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UM BRILHANTE DEPOIMENTO DE HARLAN ELLISON

O ilustrador Montalvo Machado publicou com legendas em seu blog um trecho de uma entrevista do escritor Harlan Ellison onde ele esculhamba com essa mentalidade de fazer algo "só pra divulgar". Vale a pena assistir:

- Depoimento de Harlan Ellison


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Um pensamento de certos empresários ao olharem para um artista:
"Com seu talento e minha esperteza, você vai ficar famoso e eu vou ficar RICO!"

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

DANDO AQUELA FORÇA

Vira e mexe, chega alguém pedindo pra cobrar um preço camarada, que está querendo "dar uma força" pra gente. Em contrapartida, pedem que a gente "dê uma força pra eles" fazendo um trabalho profissional a baixos valores ou de graça. Depois chega um cliente de pequeno porte dizendo, "Não vai cobrar caro de mim porque minha firma é pequena, não é igual àquele cliente grande que você tem." Que, por acaso, pediu pra cobrar barato pra dar a tal força. Com que moral a pessoa que começa cobrando errado vai conseguir subir valores um dia?

Um amigo sempre diz que "quem faz preço de amigo, não faz serviço de amigo." Claro que negociar faz parte do jogo e há momentos em que pesa a amizade para se firmar um trabalho, mas nunca pode ser desvantajoso para ninguém, senão a amizade fica comprometida. O melhor é ser profissional.

Para quem é prestador de serviços, a situação em geral não é muito bem compreendida. Se um cara é dono de um pequeno mercado, nenhum conhecido ou parente tem coragem de chegar e falar "Deixa eu levar 1 kg de carne moída e uns pacotes de macarrão? Faz de graça ou um precinho bem em conta pra mim, vai, que eu falo bem de você por aí."

Já perante um desenhista, fica sempre aquele pensamento: "Pô, o que custa ele fazer um desenhinho pra mim? Tá sem fazer nada agora..."

Morar com os pais realmente impede que muita gente se preocupe com essas coisas mundanas. Ou o artista em questão tem um emprego fixo, que permite encarar todo o resto como "bico". Mas até um bico tem sua função e parece que a maioria dos artistas não se preocupa com isso. Daí, quem corre atrás e fica cobrando posição acaba parecendo o mercenário que muitas vezes irrita o contratante ou o funcionário que tem que responder pelo seu pagamento. Que por acaso tem seu salário, independente do que aconteça.

Se muita gente subvaloriza o trabalho artístico, é porque muitos artistas não se comportam profissionalmente na hora de receber o pagamento que, sempre digo, é uma das minhas partes favoritas em um trabalho. E não me envergonho de dizer isso.

Profissionalismo é uma via de mão dupla: de um lado, você cumpre uma tarefa no prazo e com a qualidade que o cliente precisa e, do outro, espera que o pagamento acordado e agendado seja recebido na data estipulada.Muitos clientes não esquentam a cabeça com isso porque muitos artista
s, infelizmente, não ligam muito para o próprio bolso ou têm vergonha de ficar cobrando algo que é seu por direito.


Amanhã, um texto sobre as armadilhas do trabalho em troca de divulgação.


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O tema de valorização do trabalho artístico é tema recorrente neste blog. Se perdeu, leia também:

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Criticando o Mercado de Quadrinhos


Falar sobre mercado de trabalho é um assunto recorrente para mim e rende longas conversas com alguns bons amigos da área. A questão que sempre colocamos é: o mercado de HQs atravessa um momento negro como atividade profissional.
Não estou falando sobre publicações ou divulgação. A internet propicia um meio democrático de divulgação e publicação virtual de trabalhos de qualquer um. Isso é indiscutível e tem permitido a muita gente expressar e divulgar sua arte como nunca acontecera antes.

No meio impresso, a grande proliferação de álbuns nacionais (notadamente com temas históricos ou adaptações literárias) e revistas independentes ganha espaço na mídia especializada e cria a ilusão de que vivemos uma era de ouro. Algumas andorinhas não fazem um verão. Há álbuns comercialmente bem sucedidos, mas ainda é cedo para indicar esse tipo de trabalho como o ganha-pão de muitos autores.

Estou um pouco cansado de ler gente inteligente dizendo asneiras sobre como o mercado de HQ no Brasil vive um momento fantástico. Pode ter alguns sinais promissores aqui e acolá, mas falta muita coisa pra ser viável economicamente pra quem faz. O mercado local só está fantástico pra quem não tem a pretensão de viver escrevendo ou desenhando histórias (ou colorindo, finalizando), fazendo isso em paralelo com outras atividades. E fantástico para quem é leitor e tem dinheiro pra gastar, pois HQ no Brasil virou um produto elitizado, fruto de um mercado na verdade fraco, que aposta no poder de compra de um número cada vez menor de leitores. Muito longe da imagem antiga do gibi como diversão popular. HQ agora é pra iniciados.
Analisando o aspecto criativo, vivemos tempos interessantes mesmo. Ecos das cultuadas séries Love and Rockets e Estranhos no Paraíso povoam muitas páginas de publicações alternativas ou independentes, mostrando que HQs de cotidiano têm força e algum público. E também super-heróis nacionais encontram espaço no mundo alternativo, alguns bastante nacionalistas e até com alguma xenofobia, por mais estranho que isso possa soar vindo de quem se inspira em modelos criativos estadunidenses.

Mas o mercado alternativo tem gerado, como já comentei no Twitter, vários "popstars" que vendem 500 exemplares em lojas especializadas - o que é ridículo em um mercado que já teve gibis nacionais vendendo milhares de exemplares em bancas. Como comentou o Nick Farewell, também no Twitter, o mercado de HQ independente é um mercado de subsistência. Quem compra é quem também faz. E não deveria ser tão limitado.

Veja bem: eu apoio totalmente a existência de um mercado alternativo e independente, que permita trabalhos autorais e experimentações. Eu mesmo venho tentando produzir algo assim. E muitos independentes não querem ficar à margem do mercado, querem buscar públicos cada vez maiores para fazer a transição para o quadrinho de alcance mais popular. O problema é que esse mercado repleto de publicações (entre álbuns, fanzines, fotologs, revistas independentes e afins) está sendo compreendido de forma equivocada. Mercado de publicações de quadrinhos é algo diferente de mercado de trabalho para quadrinhistas. Há muitos títulos, mas basta perguntar se esses autores estão tirando seu sustento dessas HQs ou se o dinheiro deles vem de outras fontes, como ilustração publicitária, aulas ou até um emprego fixo formal. Em geral, os que realmente vivem de HQ ou produzem para o Mauricio de Sousa ou trabalham para o mercado dos EUA. As opções são poucas.
Para os editores, tem sido, como sempre foi, um bom negócio publicar HQs traduzidas. Material japonês, estadunidense e coreano lota as bancas e lojas especializadas, ajudando naturalmente a sufocar a incipiente produção nacional que, em termos de mercado, se resume à Turma da Mônica e a algumas empreitadas isoladas. Eventualmente, Ziraldo ou algum outro, como Luluzinha Teen. Mas fica muito difícil competir em igualdade com o volume de produção e qualidade que vem de fora, pois ele já foi muito testado e aperfeiçoado em outras condições de mercado mais favoráveis ao desenvolvimento profissional.

Sou contra reservas de mercado, mas alguns incentivos fiscais do governo seriam bem vindas. Comprar álbuns de autores nacionais para suprir bibliotecas claro que é interessante, mas isso vai criando algumas amarras criativas, pois muita coisa acaba sendo feita para ser comprada pelo governo, e não para ser oferecida ao mercado.

Muitos autores de HQ que têm aparecido são também ilustradores publicitários. Basta perguntar a qualquer um deles se teria condições de largar tudo para se dedicar integralmente a produzir quadrinhos visando o mercado de bancas, se sujeitando aos preços que a maioria das editoras pode pagar. Lembrando que, se o gibi nacional ficar muito mais caro que o traduzido, aí é que a competição fica ainda pior para o lado mais fraco. Com tudo isso, fica realmente difícil formar uma geração de autores. Eu mesmo não posso largar minhas atividades profissionais para uma empreitada visando bancas. Já fiz muito disso quando era mais jovem e me preocupava mais com realização pessoal do que sobrevivência.

Uma vez, fui entrevistado por uma jornalista japonesa que me perguntou o que poderia ser feito para que os personagens japoneses fossem ainda mais populares no Brasil. Minha resposta talvez a tenha decepcionado. Eu disse que ao invés disso, preferia que os autores e editores daqui fizessem como os do Japão, valorizando mais a produção nacional e buscando uma maior identificação com o público local.

Ou seja, eu quero um mercado de trabalho para quadrinhistas. Um mercado de trabalho realista, sério, competitivo, desafiador, com menos oba-oba e mais volume de produção.