segunda-feira, 27 de abril de 2009

ANSIEDADE ARTÍSTICA

Em todos os cursos e oficinas de desenho, mangá ou quadrinhos com os quais trabalhei até hoje, vejo um mesmo erro se repetir infinitamente: a pressa no resultado final.

Desenhistas profissionais fazem esboços preliminares até chegar a um que agrade. Depois, trabalham melhor o desenho até uma forma mais refinada. Somente então entra a finalização, que pode ser feita com canetas, pincéis, bico-de-pena, ou até canetas de mesas digitalizadoras. Finalmente, as marcas do esboço são apagadas e o desenho pode ir para uma etapa seguinte de colorização, aplicação de efeitos, letras ou diagramação. Mas o iniciante quase sempre quer que seu desenho à lápis seja feito de traço único, imitando a linha precisa de uma caneta, sem qualquer esboço previo.

Quer copiar em meia hora o que um profissional levou horas elaborando. Ou quer que sua criação tenha o mesmo nível de acabamento. E muitas vezes, ele enxerga assim. E custa a aceitar que o esboço é uma etapa quase inevitável para desenvolver melhor seu trabalho.

Normalmente, uso metáforas pra explicar por quê não adianta ter pressa. Pra quem gosta de esporte, pergunto se é possível um aluno de karatê querer quebrar 10 tijolos com a mão na primeira ou segunda aula. Ou se alguém que está aprendendo a nadar pode, antes de aprender a dar braçadas fortes na piscina, dar um salto ornamental do trampolim olímpico. Se o aluno estuda ou estudou música (como guitarra ou violão), pergunto se apenas com algumas poucas aulas é possível tocar como o Eric Clapton. Todos entendem esses exemplos, mas enxergam o desenho de forma diferente. "Ah, eu desenho assim porque é o meu jeito, o meu estilo." - pensam muitos, fechando as portas da mente para um aprendizado mais consistente.

A maioria dos alunos tem preguiça de pensar, querendo resolver a ideia logo no primeiro esboço. E depois querem finalizar o desenho de cara, ansiosos por ver logo o resultado. O desenho não vai melhorar enquanto o senso de observação não ficar mais aguçado e o aluno ficar mais exigente com o resultado. Mas isso só quem adquire alguma humildade e tem força de vontade vai entender e assimilar.

Lutar contra a própria ansiedade é algo que muitas vezes separa o artista promissor daquele que vai parar no tempo. E é dever de cada professor fazer o aluno entender que o desenho exige disciplina e humildade para realmente progredir. Como tudo na vida.

2 comentários:

Caio Murdock disse...

Como saber quando chegou a hora de finalizar um trabalho?

*Eu tinha pensado em enrolar um pouqinho mais é melhor ser direto ...

Alexandre Nagado disse...

É difícil falar com precisão de algo tão subjetivo e individual. Para um profissional, existem os limites de tempo de produção para atender ao cliente e isso acaba sendo decisivo. Já entreguei muitos trabalhos que eu tinha consciência de que, se tivesse tempo, poderia fazer algo mais elaborado. Mas que eu tinha que equilibrar qualidade técnica com o prazo. E aí entra o profissionalismo e a experiência.

Quando não se tem experiência, é bom sempre ter como parâmetros o trabalho de algum profissional. Veja se as proporções estão corretas, veja se a imagem está com bom equilíbrio, se a finalização está precisa, se a composição deixa clara a intenção da ilustração, enfim, tente checar tudo o que você puder.

Pedir opinião para alguém que não desenha pode ser útil, pois pode mostrar se você está comunicando bem com seu desenho. É isso.