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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

UM DEPOIMENTO SOBRE CULTURA POP JAPONESA

Em 2008, as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil geraram muitos eventos, produtos e trabalhos para gente ligada à colônia. Diversos projetos editoriais homenagearam a cultura japonesa e participei de dois deles. Um foi o livro Brasil Japão - 100 anos de paixão (M.Books), que eu mencionei dias atrás. Outro foi o Almanaque do Centenário da Imigração Japonesa (Ed. Escala), livro que reuniu depoimentos de pessoas ligadas à área editorial e de cultura. Minha parte foi um longo depoimento sobre minha ligação com a cultura pop japonesa. O texto segue abaixo, na íntegra.


MINHA LIGAÇÃO COM O LADO POP DO JAPÃO

Entre japoneses e seus descendentes, há diferentes definições étnicas, conforme o grau de ascendência. "Issei" é o japonês nativo. "Nissei", o termo mais popular, é o filho de japoneses e "sansei", é o neto ou nikkey de terceira geração. Há ainda os "yonsei" (quarta geração), “gossei” (quinta geração) e por aí vai. Sou um sansei, resultado da união das famílias Nagado, Uema, Nohara e Yamashiro, todas provenientes de Okinawa, na parte sul do Japão. Para muita gente, Okinawa é algo à parte dentro do território japonês. Um reino anexado ao Japão no século XVI, o povo de Okinawa (ou Utiná) tem língua, tradições e traços físicos diferentes da maior parte do arquipélago japonês. (Nota: Sobre Okinawa, há um livro essencial escrito por meu falecido tio-avô José Yamashiro. Indicação no final do texto.)

Mesmo sendo um descendente sem mistura racial e tendo sido criado até os 12 anos com a presença marcante de meu avô materno, tive uma criação bem mais ocidental que muitos amigos também descententes que estudavam comigo. Por outro lado, me interessava muito por um lado do Japão não muito ligado às tradições ancestrais, que eram os desenhos e seriados que via na TV. E havia também o mangá, que eu descobri na escola onde fiz pré-primário. Desde pequeno, gostava de desenhar e fazia isso o tempo todo, em grande parte, motivado pelo que eu lia e assistia.

PRIMEIROS CONTATOS
No início, o que me moveu a querer ser desenhista foi gostar de quadrinhos. Eu lia de tudo: Mônica, Capitão América, Mortadelo & Salaminho, Tio Patinhas... E assim ficava criando minhas próprias histórias durante minha infância, na década de 1970. Na TV, assistia Batman, Os Monkees, Viagem ao Fundo do Mar, Os Impossíveis e tantos outros. Mas o que eu mais curtia era ver seriados japoneses de animê (animações) e tokusatsu (efeitos especiais), apesar de na época nem imaginar tais definições. Assisti Ultraman, Ultra Seven, Robô Gigante, Speed Racer, A Princesa e o Cavaleiro, Sawamu, Fantomas e outros, especialmente na TV Record e na extinta TV Tupi. Na Record, inclusive, havia o “Especial do Mês”, um filme que era anunciado como uma grande atração. E na época, a garotada levava a sério e aguardava ansiosamente pelos “grandes clássicos” programados. Entre filmes de ficção científica “B”, faroeste italianos e pancadarias de Hong Kong com imitadores de Bruce Lee, havia os filmes de monstros gigantes (chamados no Japão de “kaiju eiga”), como A Fuga de King Kong (a divertida versão nipônica do famoso gorila), Godzilla versus King Kong, Gamera contra Barugon, Ataque dos Monstros e muitos outros.

No geral, tanto as emissoras quanto os empresários viam tudo isso como tapa-buraco de programação, até mais do que hoje. Praticamente não havia licenciamento. Somente Spectreman teve série em quadrinhos, pela Editora Bloch, mas não parecia material oficial. A produção era nacional e, apesar do traço dinâmico de Eduardo Vetillo, havia muitas discrepâncias em relação ao que era veiculado na TV, além da falta de informações de copyright. E Ultraman teve alguns brinquedos lançados pela Glasslite no começo dos anos 80, que passou meio desapercebido. Mas foram fatos bem isolados.

Lembro-me também de assistir ao Imagens do Japão (com Rosa Miyake) e ao Japan Pop Show (com Nelson Matsuda), programas muito divertidos que eu assistia com minha família. Algumas bandas e artistas solo que apareciam em clipes que esses programas exibiam chamavam minha atenção. Alguns cantores japoneses chegaram a vir ao país, como Itsuki Hiroshi e Kondo Masahiko, em shows que mobilizaram a comunidade nipo-brasileira. Falando em música, as canções de séries japonesas, as chamadas anime songs, também chamavam muito a minha atenção, mas não havia, na época, onde procurar tais coisas.

Lá pelos anos 80, séries antigas ainda eram reprisadas e uma ou outra coisa “nova” aparecia, como Rei Arthur, Menino Biônico, Angel e Robotech. Com a estréia da TV Manchete em 1983, novos desenhos japoneses chamaram minha atenção, como o Pirata do Espaço e a Patrulha Estelar (Yamato), que é até hoje meu animê favorito. Na metade daquela década, fui estudar desenho no estúdio-escola Núcleo de Arte e comecei a esboçar meus primeiros passos na carreira. Na época, já ouvia do professor Ismael dos Santos como o mercado de quadrinhos era complicado e eu precisava diversificar meu trabalho para me manter em atividade. Mesmo tendo resolvido trabalhar com desenho editorial ou publicitário, ainda assim queria poder trabalhar paralelamente com quadrinhos. E foi o que aconteceu.

ESTRÉIA PROFISSIONAL
A chegada de Jaspion e Changeman ao Brasil, no final dos anos 80, causou uma verdadeira febre de consumo e incendiou a audiência. Depois de lançados em fitas VHS pela Everest Vídeo, agitaram a audiência na TV Manchete e abriram caminho para muitas séries similares em outros canais. Logo, vi nas bancas gibis que adaptavam os episódios da TV, mas feitos por artistas nacionais e com a autorização da produtora Toei Company. A editora era a EBAL, outrora uma gigante do mercado editorial, que dava tímidos passos para se manter na ativa.

Entrei em contato com a empresa que representava aqueles heróis no Brasil, a Alien International, que por acaso ficava perto de casa, em Pinheiros. Tinha esperança de conseguir um teste pra revista ou uma chance em algum projeto similar. Lá, fiquei sabendo que a revista iria sair da EBAL e migrar para a Editora Abril, onde uma nova equipe estava sendo montada, através de uma empresa terceirizada, o Studio Velpa. Lá, pediram uma história de teste. Como não tinha nada pra mostrar, criei uma história de 20 paginas e desenhei ela toda. Dias depois de enviar o material, falei com o roteirista Rodrigo de Goes, que estava coordenando a parte de criação. Ele disse que o pessoal de lá havia considerado meu desenho ainda fraco, mas que meu roteiro podia ser aproveitado. O ano era 1990, eu tinha apenas 19 anos e mal podia acreditar na chance que estava se abrindo para mim. Daí, comecei a escrever algumas histórias que foram sendo publicadas na Abril, como Flashman, Maskman e Changeman. Primeiro, foi na revista Jaspion, que depois mudou para Heróis da TV (um título que a Abril já havia usado para heróis Marvel e Hanna-Barbera), quando passou a ser produzida internamente pela Abril. Na fase de transição entre as equipes de criação, ainda escrevi algumas histórias, que depois foram assumidas por Marcelo Cassaro. Para a EBAL, eu ainda iria escrever roteiros para uma edição cada de Goggle V, Machine Man e Sharivan.

Mas como toda moda, a dos super-heróis japoneses passou, as revistas sumiram e fui batalhar trabalhos com caricatura em eventos e ilustração (atividades que exerço até hoje), mas eu logo voltaria a trabalhar com heróis japoneses.

Em 1993, o inesperado sucesso do gibi Street Fighter II (baseado no game japonês que era a sensação da época) pegou a Editora Escala desprevenida. Até então, tinham sido publicadas pela editora apenas 3 edições da versão americana e um fanzine japonês “não-oficial” lançado antes. Com a crescente procura por mais histórias, a Escala contratou os serviços de Marcelo Cassaro, João Pacheco (grande amigo que faleceria em 95, vítima de câncer) e Arthur Garcia. Mas depois da quinta edição, o Cassaro assinou exclusividade com outra editora e me indicou como seu substituto. Não éramos mais do que conhecidos, mas ele havia lido minhas histórias na época da Abril e confiou que eu poderia manter o pique da publicação. E assim, trabalhando ao lado do Arthur (que já havia desenhado roteiros meus na Abril) e de artistas como Silvio Spotti, Neide Harue e Alexandre Silva, escrevi 19 edições. No final, acabei trazendo à equipe o Rodrigo, que me incentivou e abriu portas no passado, para escrever histórias de Street Fighter ao meu lado e, depois, no meu lugar. Quando a revista foi cancelada, em 1996, eu estava bastante envolvido com outra atividade, também ligada a personagens japoneses.

DE AUTOR A PESQUISADOR
Em 1991, enquanto eu ainda fazia roteiros para a Abril, descobri o livro Mangá – O poder dos quadrinhos japoneses (reeditado pela Ed. Hedra), da pesquisadora Sonia Luyten, o que abriu meus olhos para a possibilidade de um trabalho sério de pesquisa sobre mangá e afins. Ao comprar uma edição de 1992 da revista SET – Terror e Ficção (Ed. Azul), vi anunciarem para a edição seguinte, uma matéria sobre Ultraman. Como eu tinha algum material de referência, me dispus a ajudar. Liguei na redação, conversei com o editor Carlos Eduardo Miranda (que anos depois seria jurado do programa Ídolos, do SBT) e ele me contou que ainda não havia um autor escolhido, apenas era um assunto que ele achava legal e estavam fazendo uma pesquisa coletiva pra matéria. Ele então perguntou se eu não gostaria de fazer um teste de redação. Escrevi uma resenha que foi bem recebida e acabei tendo a chance de estrear como redator, com um texto pequeno sobre Ultraman, depois de pesquisar algumas revistas importadas. Depois, veio uma reportagem maior sobre monstros japoneses. Além de puxar muita coisa de memória daquelas sessões na TV Record, pesquisei dados de jornais da colônia sobre alguns filmes de monstros (especialmente Godzilla), exibidos nos extintos cinemas da colônia japonesa, como o Niterói e o Shochiku, que eu nem cheguei a conhecer. Aliás, como era difícil conseguir informação naquela época! Pra SET, foram poucas resenhas e matérias em 1993, nada muito importante ou digno de nota.

O IMPACTO DA REVISTA HERÓI
No final de 1994, dois jornalistas que eu havia conhecido na SET, o André Forastieri e o Rogério de Campos, criaram uma publicação para falar de gibis, seriados e desenhos animados, a revista Herói (Ed. ACME, depois Conrad). Fui chamado para escrever sobre personagens japoneses e, com o grande sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco na TV Manchete naquela época, a revista assumiu patamares de venda impensáveis, com tiragens na casa das centenas de milhares de edições. Verdadeira histeria coletiva, os Cavaleiros foram um marco na TV brasileira e abriram espaço para uma infinidade de títulos. Uma edição chegou a atingir 600 mil exemplares, um fenômeno sem precedentes. Sobre os Cavaleiros, era o Marcelo Del Greco quem escrevia, enquanto eu pesquisava sobre outras produções que serviam para dar um tempero extra. Foi uma época bastante divertida e desafiadora.

Antes das facilidades da internet, tínhamos que pesquisar em revistas americanas importadas, procurar colecionadores, ir em obscuras locadoras da colônia e tentar decifrar nomes e datas em raras e caras revistas importadas japonesas. Nessa hora, valia a ajuda de amigos, professores, parentes, vizinhos, quem quer que estivesse perto e entendesse os complicados ideogramas. Algumas vezes, alugava fitas “alternativas” em locadoras da colônia, congelava a imagem do videocassete para copiar os créditos em japonês para descobrir quem criava e produzia os seriados sobre os quais eu escrevia. Aos poucos, dubladores e licenciantes também foram se tornando fontes valiosas de informação.

Entre erros e acertos, fomos ajudando a criar uma imprensa especializada em cultura pop japonesa, ajudando a popularizar termos, artistas e personagens. Outras revistas surgiram na época e a imprensa especializada fomentou grupos de fãs, eventos e um público com bastante conhecimento. As palavras “anime” (uma pronúncia equivocada para animê que acabou pegando) e “otaku” (o fã de animê/mangá) ganharam significados próprios. Inicialmente uma palavra pejorativa no Japão para designar fanáticos por alguma coisa e sem vida social, aqui no Brasil o termo otaku passou a indicar animadas multidões de fãs de personagens e cultura pop japonesa.

Depois, já no começo desta década, veio a revista Henshin (Ed. JBC), onde o Del Greco era editor e eu fui um colaborador nos dois primeiros anos, chegando a organizar a primeira versão do site, que hoje existe no lugar da revista. Falando em sites, com a explosão da internet, eles realmente tiraram muito espaço das revistas, pois oferecem informação grátis e com mais rapidez. Outros projetos vieram, como o NihonSite.com e uma extensa produção para o site Omelete.com.br e, em menor escala, para o Bigorna.net. Apesar de no Omelete escrever também sobre livros, música e até eventualmente cinema, meu forte continua sendo o universo dos heróis japoneses. Parte desse material foi compilado no livro Almanaque da Cultura Pop Japonesa (Ed. Via Lettera).

Sem nunca largar totalmente dos quadrinhos, publiquei alguns projetos pessoais com óbvia inspiração nipônica: Blue Fighter, uma (meio tosca, confesso) homenagem a heróis de tokusatsu e também Dani, uma garota criada para historinhas de cotidiano. Ambos saíram algumas vezes em revistas profissionais e Dani ainda integrou em 2003 a coletânea Mangá Tropical (Ed. Via Lettera), álbum onde reuni alguns bons autores de mangá brasileiro, tentando honrar uma tradição de cerca de 40 anos de produção de mangá nacional.

Agora, com a proximidade das comemorações do centenário da imigração, o mangá, o animê, o J-pop (pop-rock japonês), o cosplay (o pessoal que se fantasia de personagens) os games e os heróis japoneses se uniram às artes mais tradicionais, como a ikebana (arranjos florais), origami (dobraduras de papel) e taikô (os trovejantes tambores). Tudo isso está amplamente difundido entre não-descendentes, muitos dos quais até estudam japonês para ter mais acesso ao material que curte. Como Jaspion, Changeman, Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Pokémon e agora Naruto, as febres vêm e passam, mas existe um público que independe de grandes sucessos na mídia. 30 anos atrás, isso seria impensável pela ausência de informações e um público especializado que cresceu lendo e se informando sobre o lado mais pop e divertido do Japão. De certa forma, sinto-me parte desse processo.

Dica de leitura:

Okinawa – Uma ponte para o mundo (esgotado)
Autor: José Yamashiro
Editora: Cultura Editora Associados
Lançamento: 1993

Formato: 14 x 21 cm, com 280 páginas

Sinopse: A história de Okinawa, seu povo, costumes, religiosidade e tradições num abrangente relato do jornalista e historiador José Yamashiro.

Sites sobre Okinawa:
www.uchina.com.br / www.utinapress.com.br / www.radiolequios.com.br

2 comentários:

Guyferd disse...

Histórias sobre a origem do profissional que tive como inspiração para meu projeto eu considero sempre interessantes.

Hoje em dia quando encontro alguma imagem ou traduzo algum texto para meu site, fórum, blog ou qualquer outro projeto, mal consigo pensar nas dificuldades vividas naquela época, em que a pessoa que não soubesse o mínimo de japonês provavelmente perderia o emprego.

Mas o detalhe que me fez postar aqui é que discordo de Blue Fighter ter sido tosco.
O personagem e a própria aventura eram no mesmo patamar ou até bem superior a algumas histórias dos heróis japoneses publicadas no Brasil.

Eu comprei, guardo e até pretendo voltar a colocar pra download estas preciosidades, pois o personagem chegou a formar 100 pessoas numa comunidade do Orkut. E olha que eu nem tinha divulgado muito tal comunidade.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Guyferd. Pesquisar informações sobre seriados naquela época era bem complicado. Mas muito divertido quando conseguíamos alguma coisa.

O Blue Fighter eu vejo como algo experimental que fiz, com muita coisa que eu gostaria de ter feito diferente. Mas entre erros e acertos, fico contente que tenha gente que diga que gostou.

Abração!