sexta-feira, 19 de setembro de 2008

ALMANAQUE DO CENTENÁRIO

Um registro interessante, antes tarde do que nunca:

A Editora Escala lançou, há alguns meses, o livro Almanaque do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, uma obra de 162 páginas, repleta de imagens históricas e relatos preciosos. Os autores são Daniel de Rosa, Ricardo Cruz e Minami Keizi. Além de um grande número de informações sobre a cultura japonesa e sua presença no Brasil, há capítulos sobre a vida de Cláudio Seto, Lucy Saratani, Noryuki Sato, Isidoro Yamanaka, Jorge Okubaro, Ryoki Inoue, Minami Keizi e este que vos escreve. Meu depoimento ocupa 6 páginas e foi feito com foco em minha relação com a cultura pop japonesa, que vem desde minha infância. Dois trechos eu reproduzo abaixo:

MINHA LIGAÇÃO COM O LADO POP DO JAPÃO

Entre japoneses e seus descendentes, há diferentes definições étnicas, conforme o grau de ascendência. "Issei" é o japonês nativo. "Nissei", o termo mais popular, é o filho de japoneses e "sansei", é o neto ou nikkey de terceira geração. Há ainda os "yonsei" (quarta geração), “gossei” (quinta geração) e por aí vai. Sou resultado da união das famílias Nagado, Uema, Nohara e Yamashiro, todas provenientes de Okinawa, na parte sul do Japão. Para muita gente, Okinawa é algo à parte dentro do território japonês. Um reino anexado ao Japão no século XVI, o povo de Okinawa (ou Uchiná) tem língua, tradições e traços físicos diferentes da maior parte do arquipélago japonês.

Mesmo sendo um descendente sem mistura racial e tendo sido criado até os 12 anos com a presença marcante de meu avô materno, tive uma criação bem mais ocidental que muitos amigos também descendentes que estudavam comigo. Por outro lado, me interessava muito por um lado do Japão não muito ligado às tradições ancestrais, que eram os desenhos e seriados que via na TV. E havia também o mangá, que eu descobri na escola onde fiz pré-primário. Desde pequeno, gostava de desenhar e fazia isso o tempo todo, em grande parte, motivado pelo que eu lia e assistia.

PRIMEIROS CONTATOS

No início, o que me moveu a querer ser desenhista foi gostar de quadrinhos. Eu lia de tudo, como Mônica, Capitão América, Mortadelo & Salaminho, Tio Patinhas... E assim, ficava criando minhas próprias histórias, durante minha infância na década de 1970. Na TV, assistia Batman, Os Monkees, Viagem ao Fundo do Mar, Os Impossíveis e tantos outros. Mas o que eu mais curtia era mesmo ver seriados japoneses de animê (animações) e tokusatsu (filmes e séries com efeitos especiais), apesar de na época nem imaginar tais definições. Assisti Ultraman, Ultra Seven, Robô Gigante, Speed Racer, A princesa e o cavaleiro, Sawamu, Fantomas e outros, especialmente na TV Record e na extinta TV Tupi. Na Record, inclusive, havia o “Especial do Mês”, um filme que era anunciado como uma grande atração. E na época, a garotada levava a sério e aguardava ansiosamente pelos “grandes clássicos” programados. Entre filmes de ficção científica “B”, faroeste italianos e pancadarias de Hong Kong com imitadores de Bruce Lee, havia os filmes de monstros gigantes (chamados no Japão de “kaiju eiga”), como “A fuga de King Kong” (a divertida versão nipônica do famoso gorila), Godzilla versus King Kong, Gamera contra Barugon, Ataque dos Monstros e muitos outros.
....

Em 1991, enquanto eu ainda fazia roteiros para a Abril, descobri o livro Mangá – O poder dos quadrinhos japoneses (reeditado pela Ed. Hedra), da pesquisadora Sonia Luyten, o que abriu meus olhos para a possibilidade de um trabalho sério de pesquisa sobre mangá e afins. Ao comprar uma edição de 1992 da revista SET – Terror e Ficção (Ed. Azul), vi anunciarem para a edição seguinte, uma matéria sobre Ultraman. Como eu tinha algum material de referência, me dispus a ajudar. Liguei na redação, conversei com o editor Carlos Eduardo Miranda (que anos depois seria jurado do programa Ídolos, do SBT) e ele me contou que ainda não havia um autor escolhido, apenas era um assunto que ele achava legal e estavam fazendo uma pesquisa coletiva pra matéria. Ele então perguntou se eu não gostaria de fazer um teste de redação. Escrevi uma resenha que foi bem recebida e acabei tendo a chance de estrear como redator, num texto pequeno sobre Ultraman, depois de pesquisar algumas revistas importadas.
Depois, veio uma reportagem maior sobre monstros japoneses. Além de puxar muita coisa de memória daquelas sessões na TV Record, pesquisei dados de jornais da colônia sobre alguns filmes exibidos nos extintos cinemas da colônia japonesa, como o Niterói e o Shochiku, que eu nem cheguei a conhecer. Aliás, como era difícil conseguir informação naquela época!

(Depoimento completo exclusivamente no Almanaque do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil - Ed. Escala)


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