terça-feira, 29 de julho de 2008

Entrevista com a cantora Mari Iijima, de Macross

Como um complemento para a matéria que escrevi sobre J-pop para a edição 9 da revista Mag!, realizei uma entrevista com uma artista japonesa saída da indústria do pop da Terra do Sol Nascente. A cantora, pianista e compositora Mari Iijima, de 45 anos, estourou nas paradas de sucesso no Japão em 1982, cantando os temas de um animê de robôs gigantes chamado Macross, também conhecido no resto do mundo (inclusive no Brasil) como Robotech. Buscando novos horizontes, ela mudou-se para os EUA e mantém uma carreira nos dois países, gravando álbuns e fazendo shows.

Mari Iijima, a eterna Lynn Minmei
Em meu texto para a revista, é citada a relevância da trilha sonora de Macross para a aproximação entre o mundo pop e os desenhos animados japoneses. Por isso, o editor pediu que eu colhesse um depoimento da cantora via e-mail. Alguns elementos foram incorporados à matéria, mas a entrevista, mesmo curta, não entrou por causa do espaço final da edição. Por isso, resolvi mostrar aqui no blog. Abaixo, minha entrevista exclusiva com Mari Iijima:

1) Nos anos 80, que tipo de pressão as pop idols tinham? Elas podiam se apresentar em seu próprio estilo ou tinham que seguir orientações estritas de produtores e empresários?

- Eu nunca me considerei uma pop idol. Há uma categoria específica chamada “idol singers” no Japão. Elas se vestem fofas e cantam com pequenas coreografias. Minha equipe na JVC Victor queria me promover numa nova categoria chamada “new music”, significando que eu seria a primeira ídolo cantora e compositora. Eu escrevi todas as faixas em meu álbum de estréia e eles me deixaram escolher o produtor Ryuichi Sakamoto também. Então, não era como se eles estivessem totalmente no controle. Não era como se minha equipe estivesse controlando minha arte. É mais ou menos como se nós não soubéssemos o que fazer primeiro. Então, nós seguíamos suas direções confiando que eles estavam fazendo a coisa certa para nós.

Para mim, a imagem que estavam empurrando não era exatamente o que eu queria, pois eu queria ser levada muito a sério como musicista. Eu nasci para ser musicista. É minha verdadeira vocação. Mas quando eu estava na TV cantando uma música com uma faixa branca na cabeça, as pessoas não achavam que eu realmente podia tocar peças clássicas ao piano (eu era uma grande pianista na escola), nem que eu podia escrever e arranjar música como ninguém mais. ;)

Então, ter uma equipe e discutir que direção nós queremos seguir, que tipo de pessoas queremos atingir com minha música, é MUITO importante. Se você não faz isso no começo, sua carreira pode estar condenada para sempre. Ainda... eu me diverti muito durante aquele período. Eu era jovem e destemida.


2) Qual é a principal referência para artistas pop japoneses? Beatles, música pop norte-americana ou algum outro tipo de som?
- Humm... Nós (os músicos japoneses) geralmente gostamos de pop e rock americanos e também, nos 80 e 90, tivemos muito acesso ao cenário musical inglês. Eu era mais ligada nos Wings (Paul McCartney & The Wings) do que nos Beatles quando eu era mais jovem. Eu também era louca pelo Queen. Sou de formação clássica, então o estilo musical de Freddie Mercury me fez sentir muita proximidade com ele. Eu gostava de suas produções musicais, os sons de guitarra, as linhas de baixo... Elton John, Hall & Oats, Bay City Rollers, a banda inglesa Japan, Tears for Fears. Eu gostava das produções de Quincy Jones também. Coisas legais de rock e um elegante Rhythm´n blues. Eu gosto de BOA MÚSICA. Sempre!!

3) Quais as principais diferenças entre a música pop americana e a japonesa?
- Hoje em dia, eu acho que elas estão ficando mais parecidas. Estão ficando mais visuais e ligados em imagem aqui nos EUA, também. Mas eu acho que os músicos aqui precisam ser tecnicamente bons em um certo nível. Eu não vivo no Japão, e não quero ser muito crítica, mas quando eu volto lá para fazer turnês e ouço as rádios ou vejo TV, algumas vezes solto um “Oh, meu Deus”. Acho que é o lado reverso do fenômeno do choque cultural.

Eu acho que alguns músicos são realmente conectados com o Universo. Isso significa que algumas pessoas sabem que nasceram para criar música. É seu objetivo de vida. Mas algumas pessoas estão fazendo música apenas por causa de... Não há uma conexão espiritual entre o que eles fazem e o Universo. Eu acho que musicistas verdadeiros como eu ;), cuja busca é claramente a música, deveriam ser mais reconhecidos na indústria musical em todo o mundo. Mas nós não podemos ter tudo o que queremos às vezes, não é? A chave é o esforço... Você precisa ser persistente com seu sonho. Deus testa sua força de vontade de tempos em tempos. Você busca sua vocação, se lapida para isso e segue seu sonho. E nós temos que acreditar, há sempre esperança e nossos sonhos se realizarão um dia.

Com toda minha sinceridade,
Mari Iijima
30 de abril de 2008



BASTIDORES DA ENTREVISTA

Algumas coisas chamaram a atenção nesse papo. Primeiro, ela frisou que não daria entrevista se o tema Macross fosse mencionado. Ela detesta ser associada ao trabalho que a lançou ao estrelato. Porém, em 2007, ela retornou ao Japão para cantar no show comemorativo de 25 anos da série. Na mesma época, a série foi lançada em DVD nos EUA e ela dublou em inglês sua personagem Lynn Minmei. Ainda assim, ela evita de todo jeito ser associada com essa série.

Em momento algum, ela demonstrou qualquer interesse pelo Brasil ou pela publicação que ia veicular a entrevista (algo que seria normal), mas pediu que o texto fosse traduzido para ela antes de ser publicado, o que era inviável, pois eu não teria controle sobre a edição final do texto.
Depois da entrevista, perguntei se ela poderia indicar alguém que pudesse liberar alguma imagem oficial de Macross. Ela apenas respondeu que não sabia e que isso não era trabalho dela. Imagino que, com trabalhos feitos recentemente para a franquia Macross, alguém ela devia conhecer...

Se ela detesta tanto, não devia aceitar cantar músicas de Macross ou dublar a personagem central apenas pelo dinheiro. Se ela aceitou profissionalmente (o que é perfeitamente normal), não devia ter vergonha de falar sobre isso, pois, querendo ou não, é por causa de Macross que muita gente vai atrás do trabalho autoral dela. Conheci artistas com mais reconhecimento que ela e com uma postura bem mais leve, humilde e desencanada perante a vida. 

Artistas são seres humanos como todos nós, com defeitos e fraquezas. É importante separar a pessoa do profissional. Ela continua sendo uma talentosa e respeitável artista. Mas não tenho vontade alguma de um dia bater papo ou tomar um café com ela.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu sou fã de Macross, e como você mesmo disse, acabei indo atrás do trabalho da Mari em função disso. Também já tinha percebido essa aversão dela em tocar no assunto, inclusive um certo descaso com outras pessoas que se dizem fãs das musicas dela por causa de Macross.
Ora, se como ela mesma diz, compôs todas as músicas do primeiro albúm(inclusive boa parte das musicas de Macross), não seria esse também um "contato com o universo"... enfim.
Ela também me parece avessa a criticas. Ao postar no youtube a demo de uma nova musica, havia um comentário dizendo que ela estaria fora de tom em algumas notas. A resposta foi seca "try to feel the music instead of analysing..."(tente sentir a musica ao invés de analizar)...
Não me pareceu uma analise, tão pouco uma critica, do comentarista. Apenas uma percepção. Se ela é tão talentosa e critica com o trabalho de outros artistas, pq não ter um pouco de humildade e reconhecer as coisas q tem a melhorar.
Uma postura lamentável...

Isaias disse...

Talvez falta de humildade realmente. Cuspindo no prato que comeu? Pela resposta que ela deu quando você perguntou sobre Macross dá para ter uma noção clara de arrogância. Uma grande artista deveria ser diferente. Uma pena.